Em Portugal continua a haver muito mais emoção do que análise em relação às vitórias de Donald Trump nas eleições presidenciais e dos Republicanos em Novembro.
A realidade é que uma parte muito significativa da sociedade norte-americana votou em Trump e nos Republicanos para o Congresso e governos dos estados. Porquê? Não podemos ignorar que isto aconteceu e abolir uma parte da geografia política e económica dos EUA.
62 milhões de pessoas votaram em Donald Trump; 63 milhões nos candidatos Republicanos à Câmara dos Representantes; 40 milhões nos candidatos Republicanos ao Senado; 33 estados - o número mais elevado desde 1922 - são governados por Republicanos.
Olhar para todas estas pessoas como "deplorables" ignorantes e reaccionários pode ser reconfortante nas cidades progressistas mas não mudará nada no terreno. Quem vive ou passa nos Açores, a região do país que melhor percebe os ritmos da América, sabe perfeitamente que muitos luso-americanos votaram em Trump.
A continuar, a nossa miopia em relação aos EUA não terá bons resultados. Existe um país para além do Corredor Acela entre Washington, DC-Boston e a costa da Califórnia. Esta América não existe no Velho Continente. Porém, como vimos a 8 de Novembro, estes estados norte-americanos votam. Conclusão? Temos de fazer muito melhor.
Os defensores da democracia liberal e da ordem regional europeia criada após 1991 têm que perceber quais foram as fontes da vitória de Trump e da derrota dos Democratas que perderam o apoio de uma parte do seu eleitorado. A liberdade, os valores e os interesses não se defendem ignorando a realidade.