1) INTRODUÇÃO: QUALIDADE de VIDA atualmente
Neste estudo vamos abrir um espaço para a visão crítica da qualidade de vida e do sistema de saúde questionando as nossas respostas aos estímulos estressantes dentro de um contexto social.
Antigamente, o homem satisfazia apenas com a sobrevivência. Atualmente, o homem passou a aspirar algum conforto pessoal, além naturalmente, da preocupação com a própria sobrevivência, da família e da comunidade, diante de um mundo que poderia oferecer muita comodidade com o consumo de produtos de toda natureza. Subentendia que tudo isto iria satisfazer o bem querer de si e o afeto dos que lhes eram caros.
Nos dias de hoje instituições que são dirigidas por gestores por demais gananciosos e inescrupulosos aproveitam a possibilidade que a tecnologia traz de produzir excessivo crescimento econômico, criando um meio ambiente, no qual a vida se tornou física e mentalmente comprometida: ar poluído, ruídos estressantes, congestionamento de trânsito, e outros fatores, físico e psicológico estressantes, passaram a fazer parte da vida cotidiana da maioria das pessoas. Nessa obsessão pelo crescimento econômico e má liderança pessoal, subjugado por um sistema de valores de uma sociedade altamente competitiva, no qual o objetivo maior passou a ser a busca desarrazoada por dinheiro, prestígio e poder. No Brasil, nesta onda de globalização, há um grande descompromisso político com a qualidade de vida, a situação torna-se grave, uma vez que modelos de produção e gerenciamento importados ocorreram sem considerar o nosso contexto.
Os problemas sociais de nosso tempo são decorrentes de uma visão reducionista e mecanicista da vida, que geraram tecnologia, instituições e estilos de vida patológicos. Neste contexto as doenças surgem cada vez mais frequentes e esquecemos que estas estão intimamente ligadas com atitudes estressantes, alimentações excessivas e desequilibradas, abusos de drogas, vida sedentária e poluição ambiental, e uma cobrança absurda de produtividade, aliada à aspiração pessoal descontrolada. Se considera que QUARENTA E OITO PORCNTO dos AMERICANOS SOFREM ou SOFRERAM de uma DOENÇA MENTAL GRAVE, põe viver numa nação altamente competitiva. Só uma mudança em todos esses aspectos determinará uma melhora na saúde deles.
Muitos desses riscos são ainda agravados pelo nosso sistema de assistência à saúde que adota o mesmo paradigma que está perpetuando a saúde precária. Reduzem-se, assim, os cuidados à saúde à medicina hospitalar e farmacêutica, tratando a prevenção e a saúde como processos distintos. Além disso considera-se o corpo humano como uma máquina que pode ser reduzida em termos de suas peças. Há no modelo biomédico de hoje uma divisão entre corpo e mente, que se atém apenas ao corpo físico negligenciando os aspectos psicológicos, sociais e ambientais na geração de doenças e sua interação. Deveria lidar com o paciente como um todo, pois enquanto isso não ocorrer não se adiantará gastar cada vez mais com a saúde, pois isso não gerará melhoras significativas na população (Capra,1993; Damásio, 1998).
A saúde tem dimensões todas decorrentes de complexas interações, sendo que a origem da doença tem vários fatores. Além disso seus efeitos diferem de pessoa para pessoa, pois dependem de reações emocionais do indivíduo a situações estressantes e próprias dos ambientes social e biológico.
Nos dias de hoje, apesar de existir um grande descontentamento a maioria das pessoas ainda não percebe quão profundamente a vida é influenciada por complexos fatores. Prefere-se falar em hipertensão, estresse, doenças cardíacas etc, como algo fisiológico isolado ao invés de conceber uma visão holística da saúde e promover uma transformação social e cultural. Por outro lado, esse movimento holístico da saúde está cada vez mais ativo e procura-se entender e conceber as doenças como um fenômeno multidimensional que envolve três níveis interdependentes:
a) Individual: o indivíduo deveria estar em sincronia consigo mesmo e ter um senso de autodomínio para fazer escolhas menos estressantes e relaxantes. Para isto, o funcionamento do sistema nervoso autônomo parassimpático (SNAP), que é restaurador, deveria predominar e muito sobre o simpático (SNAS), desgastante. Aí está um ponto chave do equilíbrio para alcançar o controle emocional para o nosso bem-estar, tranquilidade na vida, enfim ficar de bem consigo mesmo. Além disto seria necessário período de tranquilidade, no dia para fazer introspecção e dormir profundamente, que permitem fazer um contato da consciência individual com o seu Ego, obtendo uma melhor percepção interior do seu ser.
b) Social: a sociedade deveria formular e adotar novos modelos políticos, produzindo um novo sistema de valores na cultura social, em que se buscasse com prioridade a qualidade de vida e o de atingir a qualquer preço os indicadores econômicos.
c) Ecológico: as novas políticas a serem adotadas deveriam visar a manutenção de um ambiente sadio e autossustentável, diminuindo os fatores agressivos do dia-a-dia e aumentando a chance de uma integração natural do homem com seu meio.
Enfim para se evitar os distúrbios psicossomáticos deveremos entender a pessoa como um todo, envolvendo corpo, mente, ambiente físico e social. Com esses objetivos pretendemos esclarecer a causa das doenças psicossomáticas e propor alguns modelos de como sanar as doenças e promover a saúde.
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2) CONCEITUAÇÃO E HISTÓRIA DAS DOENÇAS PSICOSSOMÁTICAS
Há mais de cem anos que alguns psiquiatras e médicos já começaram a concordar que em alguns distúrbios as atividades somáticas e emocionais têm mão dupla. Heinroth foi quem pela primeira vez usou o termo "distúrbio psicossomático", referindo-se à insônia. Jacobi, um psiquiatra alemão, mais tarde popularizou o termo e o conceito de "distúrbios psicossomáticos" que foram ampliados até incluir colite ulcerativa, úlcera péptica, enxaquecas, asma brônquica, artrite reumatoide etc.
Mas o termo gera controvérsias. Nas classificações americanas mais recentes, DSM-llI e DSM-lll-R, tratam distúrbios psicossomáticos quando ocorrem estímulos ambientais psicologicamente significativos, que se relacionam com surgimentos ou agravamentos de distúrbio físico de uma patologia orgânica observável ou de processo fisiopatológico conhecido. A DSM-III não enfatiza a interação entre mente e corpo, renegando a abordagem holística da medicina. Para Capra o termo psicossomático exige certo cuidado. Na medicina convencional o termo foi usado para referir-se a distúrbios sem base orgânica claramente diagnosticada, por isso sempre foram considerados mais imaginários ou "psicológicos" do que reais. A nova acepção do termo, que adotaremos, foi explicitada por Capra em "O ponto de mutação" (1993) e trabalha com a interdependência corpo/mente em todos os estágios da doença e saúde. Conforme suas palavras:
• "Afirmar que um distúrbio tem causas puramente psicológicas seria tão reducionista quanto acreditar que existam doenças puramente orgânicas sem quaisquer componentes psicológicos... "
Portanto, virtualmente todos os distúrbios são psicossomáticos, pois envolvem uma interação contínua de corpo e mente em sua origem, desenvolvimento e cura. As manifestações é que variarão em cada caso, predominando ora aspectos psicológicos ora aspectos físicos. Mesmo "doenças mentais" envolvem sintomas físicos. Além do papel importante do ambiente social e cultural, deve-se considerar a família, amigos, trabalho e outros grupos sociais em sua interação com o indivíduo. Também aspectos do ambiente físico exigem, do organismo, a todo instante, movimentos de adaptação e esforços adicionais ao que o organismo pode suportar. Não podemos deixar de considerar o papel da personalidade, crucial na geração de muitas doenças. Personalidades e conflitos específicos estão associados com diferentes doenças psicossomáticas. Por outro lado, há quem defenda o ponto de vista de que a ansiedade generalizada inespecífica é derivada de uma espécie de conflito, que pode levar a várias doenças diferentes. Para Capra, o elo mais convincente entre personalidade e doença foi encontrado nas doenças cardíacas, haja visto do teste de personalidade de tipo A e B (Sabbatini, 1999); e estão sendo estabelecidos vínculos hipotéticos para outras doenças importantes, como o câncer. Um enfoque holístico terá de encarar a saúde a partir dessa ampla perspectiva.
Por outro lado, Damásio (1998) acentua que a medicina moderna confirma a hipótese acima tratando o corpo separado da mente, começando na época de Descartes. Já é tempo de considerar melhor a interação corpo-mente.
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3. FISIOLOGIA DO ESTRESSE
A origem do estresse pode ser física e/ou psíquica. Quando o indivíduo vive um tipo de vida onde os estímulos fortes e agressivos do medo são cada vez mais numerosos e intensos ou as aspirações na vida aumentam as exigências pessoais, que não são respondidos por ações corretivas, igualmente fortes, o organismo vai se desgastando. O corpo sofre a consequência, não se desligando mais, ficando hiperativo. Aí desencadeia-se o estresse exaustivo, que pode ser diagnosticado, medido e encaminhado para uma terapia.
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3.1) As reações fisiológicas ao estresse
O organismo ao se deparar com o agente estressor, que pode ser interno ou externo, desenvolve um processo conhecido como "Síndrome de Adaptação Geral" (SAG), Seyle (1965) que consiste no somatório de todas as reações sistêmicas, que não são específicas e que surgem quando o organismo está, por muito tempo ou intensamente exposto ao estímulo agressivo.
O hipotálamo reforça sua função de ativar o "Sistema Nervoso Autônomo Simpático" (SNAS), para ativar respostas físicas, mentais e psicológicas, e o "Sistema Endócrino", através da hipófise, comandando várias glândulas por meio de hormônios. Tudo isso ocorre porque o organismo necessita concentrar maior quantidade de energia para se defender. Ocorrem descargas simpáticas na camada medular da suprarrenal, provocando liberação de catecolaminas nas situações emergenciais do estresse, ativando a glicogenólise no líquido extracelular, e glicogênese no fígado, inibindo a insulina e estimulando o glucagon, estes dois últimos hormônios pancreáticos. Prossegue-se ao aumento de atividade do SNAS a liberação de catecolaminas, o mecanismo hormonal que permite o aporte de glicose às células em geral, que é seguido pela liberação de glicocorticoides, que são fundamentais para excitação de atividades cerebrais, durante a SAG.
Os glicocorticoides (GC) regulam também as catecolaminas, pois a síntese das catecolaminas necessita de glicose. Os GC são corticosteroides, estimulam a síntese de RNA, formadora de proteína e de glicogênio e suprime a síntese de DNA. A taxa de glicose precisa ser elevada no sangue, enquanto os aminoácidos e os ácidos graxos serão reduzidos em menor grau, para que haja energia disponível ao longo do estresse. Mas ao longo do tempo os GC são destrutivos para os tecidos estruturais, o que inibe o crescimento somático e ósseo, em benefício da transformação de glicose extra pela neoglicogênese.
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3.2) As fases fisiológicas do estresse.
As áreas límbicas, que controlam a atividade do hipotálamo, responsável pela homeostase, parecem ser ativadas pelo estímulo discriminativo da dor ou por outras formas de estresse; qualquer sinal de agressão ambiental ou tensão psicológica, dispara um sistema de alarme. O tálamo capta estes sinais e leva informações para o córtex, que codifica esta mensagem, e o núcleo amigdaloide, que desencadeia o comando da reação chegando no hipotálamo, este libera a corticotropina, que estimula a descarga do hormônio adrenocorticotrópico, (ACTH), pela glândula pituitária na corrente sanguínea, por onde é levada até a suprarrenal, iniciando o estresse. Esse é dividido em três fases distintas:
1) Fase de choque ou de alarme: caracterizada por taquicardia, diminuição do tônus muscular e de temperatura corporal, formação de úlceras gástricas e intestinais, hiperglicemia seguida de diminuição do açúcar no sangue com predomínio da ação do SNAS.
2) Fase contrachoque: ocorre o aumento da resistência corporal, como um meio para se adaptar, caso o dano não seja muito grave, o córtex suprarrenal e os órgãos linfáticos hipertrofiam.
3) Fase de resistência: Se há persistência do agente estressor, o organismo desenvolve uma resistência ao estímulo contínuo e atinge um ponto máximo levando à exaustão. Há predomínio da ação do GC. Quando isto ocorre, as lesões características da reação de alarme reaparecem e pode-se seguir a morte. Doenças de adaptação como a hipertensão, esclerose do rim, lesões miocárdicas, artrites etc, são devido aos excessos de hormônio da hipófise anterior e adreno-corticais, produzidos para aumentar a resistência. Os próprios mecanismos de defesa danificam o organismo.
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3.3) Outras características do estresse
Além da adaptação do nosso corpo e da mente aos estímulos agressivos, mesmo nas situações que requerem pequenas mudanças ou adaptações continuadas, podem gerar um grau de estresse, se a pessoa não tem maneira de reagir para combatê-lo. Em termos científicos, o estresse é a resposta fisiológica e de comportamento de um indivíduo que se esforça para adaptar-se e ajustar-se a pressões internas e externas. Como a energia necessária para esta adaptação é limitada, mais cedo ou mais tarde, com a persistência do estímulo, o organismo entra finalmente na fase de esgotamento.
Cada pessoa reage de forma diferente a um estímulo. Também reage de maneira diferente, de acordo com seu estado de espírito. Por exemplo: enquanto uma pessoa se depara com o semáforo vermelho no trânsito e entende que isso é necessário para a organização do trânsito, outra pessoa pode interpretar o mesmo semáforo como um fator de opressão, se estiver estressado ou muito apressado, por exemplo.
Segundo a visão que temos da realidade, do passado ou de imaginar o futuro, podemos favorecer reações de estresse. Uma visão pessimista pode favorecer estas reações, enquanto que as positivas produzem efeito contrário.
Uma dose baixa e ocasional de estresse é indispensável para nossa saúde e capacidade produtiva. Acontecimentos felizes também produzem estresse, como por exemplo o nascimento de um filho ou ganhar na loteria. Por isso se fala em estresse positivo e negativo.
As principais características da fase positiva são: vitalidade, entusiasmo, otimismo, força física etc. Na fase negativa, estamos propensos a apresentar: cansaço, irritabilidade, falta de concentração, depressões, pessimismo, baixas resistências imunológicas, enfermidades, nervosismo, mau-humor etc.
O estresse, quando forte, produz em nosso organismo um desequilíbrio, porque diversas funções se aceleram, chegando ao ponto de neoglicogenólise atacar o tecido ósseo e muscular, podendo levar maior consumo de vitaminas e sais minerais. Quando esta demanda não é atendida, o organismo apresenta sinais de carência que, no início, se caracterizam por sintomas como os detalhados na fase negativa. Se, depois desta fase inicial, ainda persistir o estresse, a fraqueza dos tecidos e de nutrientes, pode formar um círculo vicioso, com agravamento dos sintomas.
As pessoas mais estressadas são aquelas que têm dificuldade em expressar sentimentos, tendem a explodir nos momentos de tensão, mas ficam predominantemente reprimidas, fazendo um esforço para serem gentis e educadas. Muitas vezes elas ficam com remorso pelo simples fato de tirar uma folga ou praticar um lazer.
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3.4) Causas do estresse
Entre as principais causas do estresse, devemos citar:
• Mudanças: uma certa dose de mudança é necessária. Entretanto, se as mudanças violentas podem ultrapassar nossa capacidade de adaptação.
• Sobrecarga: a falta de tempo, o excesso de responsabilidade, a falta de apoio e expectativas exageradas.
• Alimentação incorreta: não é apenas importante o que comemos, mas também como comemos.
• Fumar: o cigarro libera nicotina que, na fase de menor concentração, já provoca reações de estresse leve, depois bloqueia as reações do organismo e causa dependência psicológica.
• Ruídos: coloca-nos sempre em alerta, provoca a irritação e a perda de concentração desencadeando reações de estresse, que podem levar até a exaustão.
• Baixa autoestima: tende a se agravar o estresse nestas pessoas.
• Medo: o medo acentua nas pessoas a preocupação sem necessidade, uma atitude pessimista em relação à vida ou lembranças de experiências desagradáveis.
• Trânsito: os congestionamentos, os semáforos, os assaltos aos motoristas e a contaminação do ar podem desencadear o estresse.
• Alteração do ritmo habitual do organismo: provoca irritabilidade, problemas digestivos, dores de cabeça e alterações no sono.
• Progresso: a agitação do progresso técnico é acompanhada de aumento das pressões e de sobrecarga de trabalho, aumentando os níveis de exigências, qualitativas e quantitativas
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3.5) Anatomia do estresse forte A reação de estresse e suas consequências afetam principalmente:
• O cérebro: este produz uma família de substâncias conhecidas como opiáceos, responsáveis pela sensação de bem-estar, e serotonina que faz o corpo relaxar. Submetido ao estresse, o cérebro diminui a produção das duas. Com isso, a pessoa torna-se irritável e, às vezes, insone.
• Os maxilares: a pessoa estressada costuma ranger os dentes, o que pode desgastá-los e deslocá-los da mandíbula a ponto de pressionar os nervos da face. Isso produz zunidos nos ouvidos e até tontura.
• Glândulas supra-renais: fabricam adrenalina e noradrenalina, que mantém o corpo alerta, e cortisol, que energiza os músculos. Em excesso, o cortisol reduz a resistência a infecções, pode causar morte de neurônios, envelhecimento cerebral e perda de memória.
• Coração: a noradrenalina, produzida nas suprarrenais, acelera os batimentos cardíacos, provoca uma alta pressão arterial e, quando produzida por longos períodos, sobrecarrega o músculo cardíaco.
• Pulmões: a tensão acelera a respiração. Para quem sofre de asma, acelera as crises.
• Pele: sob estresse, os vasos sanguíneos periféricos contraem-se e a pele é menos irrigada. Se o estresse é constante, o envelhecimento deste tecido é mais rápido.
• Estômago: o cérebro ordena o estômago que produza mais ácidos e menos suco gástrico. O excesso de acidez unido à queda da resistência da mucosa gástrica a infecções pode provocar úlceras e gastrites.
• Mãos: um dos maiores indicadores de tensão é suar frio nas mãos e nos pés, devido à vasoconstrição periférica, decorrente da ação do simpático.
• Órgãos sexuais: nas mulheres, o estresse diminui os níveis de progesterona, podendo causar queda da libido e distúrbios que causam cólicas terríveis, no período menstrual. Nos homens e mulheres, os efeitos do estresse prejudicam o desempenho sexual, tanto na ereção, quanto no intumescimento da vagina, por constrição dos vasos sob efeito simpático.
• Articulações: situações de estresse podem desencadear crises em pessoas que sofrem de artrite e reumatismo, pelo aumento da destruição dos tecidos ósseos e perda de cálcio.
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3.6) Sintomas fisiológicos e comportamentais do estresse
• As reações desencadeadas pelo estresse atingem o cérebro e a totalidade das funções do organismo, causando:
• Insônia: o sono tem grande importância para a resistência ao estresse, uma vez que é a principal fonte de recuperação física, mental e psicológica.
• Cansaço físico e mental: uma certa dose de estresse nos estimula a um maior rendimento. Mas, além de um limite, produz efeito contrário.
• Ansiedade: a ansiedade não é apenas um sintoma, mas causa do estresse, quando nos coloca em situação de conflito, gerando alerta pela incapacidade imperiosa de tomar providências quando a situação se degrada.
• Álcool e fumo: muitas vezes as pessoas recorrem a estes usos para combater o estresse. Entretanto, eles não apenas não servem para este propósito como contribuem para aumentar o estresse.
• Medicamentos soníferos e relaxantes: esta atitude alivia os sintomas, mas não combate as causas, que perduram.
• Sistema imunológico: um quadro de estresse prolongado debilita o sistema imunológico, facilitando a incidência de doenças.
• Enfermidades cardiovasculares: o estresse pode levar a hipertensão, arteriosclerose e infarto do miocárdio.
• Outros sintomas possíveis: perda de apetite, problemas digestivos, úlceras gástricas, obesidade, contrações musculares, dores de cabeça, agressividade, transtornos psíquicos, problemas sexuais e outros.
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4) A CULTURA DO ESTRESSE;
4.1) Do homem primitivo até nossos dias, o estresse cresce.
Juliet Schor, professora de economia de Harward, explica que o espiral da fadiga se desenvolveu como uma bola-de-neve desde o tempo das cavernas, para chegar ao auge do período em que vivemos. O homem primitivo trabalhava apenas vinte horas por semana, caçando animais nas proximidades e colhendo frutos das árvores. Embora também estivesse sujeito ao estresse pelo medo dos predadores, tempestades e tribos inimigas, o número de agressões que sofria diariamente era bem mais reduzido.
Na Idade Média, ainda se trabalhava pouco. Os países europeus tinham o descanso de domingo como princípio sagrado e cinquenta feriados por ano. Durante séculos, a maior parte da humanidade dedicou-se apenas a trabalhos braçais, que sempre terminavam ao pôr-do-sol.
Tudo isso acabou com a Revolução Industrial, que instituiu a carga horária de dezesseis horas diárias e aboliu a maioria dos feriados. No Brasil, onde tudo isso ocorreu com atraso, o choque do estresse foi mais violento. Na cultura colonial portuguesa, o ócio era elegante e o trabalho não passava de uma obrigação do escravo. Entrar na lógica da produção pesada e da concorrência capitalista foi um trauma. No século XX, no curto espaço de duas gerações, a maioria da população do país abandonou o campo para viver no estresse da cidade.
Ainda assim, Einstein (1933), três anos após ter-se imigrado para os EUA, dizia-se otimista com o desenvolvimento tecnológico, apesar das supressões generalizadas dos direitos humanos naquela época, por exemplo com o Stalinismo e o prenúncio do Nazismo e Fascismo, por acreditar que o homem iria ter mais tempo de lazer e ser mais feliz. Embora humanamente correto, engana-se socialmente.
Os avanços tecnológicos do início do século haviam prometido facilitar a vida de todos. Alguns economistas previam que na década de 90 os operários, felizardos, trabalhariam apenas três horas por dia. Entretanto, as invenções que prometiam um mar-de-rosas escondiam um risco que hoje cobra seu preço. Os automóveis diminuíram o esforço de caminhar, mas criaram congestionamentos irritantes, que custam cada vez mais caros e torna o homem sedentário com problema de circulação sanguínea. O computador, que emperra no meio de uma operação, faz o homem enfurecer-se como um canibal. Para viver bem é preciso ganhar bem, o que obriga o homem ao contínuo aperfeiçoamento e competição desenfreada para ficar empregado ou ter ganhos financeiros importantes. A vida tornou-se acelerada demais para o ritmo do corpo humano, levando a frequentes problemas de adaptação fisiológica, mental e psicológica. A informática, o fax, o celular e os pagers deixam a pessoa ligada no trabalho 24 horas por dia, sempre em alerta. É muito pior que trabalhar por doze horas seguidas, e depois ir para casa relaxar.
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4.2) O desgaste profissional e a cultura do estresse
Toda atividade profissional tornou-se desgastante, mas algumas profissões são mais estressantes do que outras. Um artista plástico opera num patamar de estresse muito mais baixo do que a telefonista ou o bancário. Um violinista de uma orquestra sinfônica terá que se proteger dos pulsos de sonoridade dos trompetes e outros instrumentos de sopro ou aguentar uma excitação excessiva. E ambos têm que se submeter às incertezas da vida artística. O fim do emprego, submete os ainda empregados a uma tensão para mantê-lo. Os autônomos têm que se virar constantemente com atualização.
A intensidade do estresse pode ser variável em relação ao afeto que se tem com o trabalho. O desgaste a que as pessoas são submetidas é fator dos mais significativos na determinação de doenças, consequências do estresse. A própria formação cultural possui características com potenciais adaptativos e estressores, dentro de uma numerosa gama de possibilidades de transformações, reproduções e expressões próprias da complexidade e da riqueza do ser humano. Critérios como trabalho, produtividade, força, vulnerabilidade, doenças e outros, são construídos pela cultura e transformados pelos indivíduos. A competitividade que o homem está sujeito culturalmente, torna-o menos sensível de perceber o exagero da demanda, queda na qualidade de vida e as diferentes formas de alerta dadas por seu organismo. Por não atender a isso, o homem torna-se um doente social e físico.
Hoje em dia, em vista deste quadro ameaçador, muitas empresas têm investido na implantação de programas que visam melhorar a saúde física e emocional de seus funcionários. Para obter aumentos sustentáveis da produtividade, da qualidade de vida, e da diminuição das licenças médicas. Apesar disso, se os funcionários não revirem seu estilo de vida e a forma de encarar o trabalho, isto não será suficiente, pois a cultura capitalista determina o trabalho como ponto de referência mais importante para se realizar.
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4.3) Oito mandamentos do viciado em trabalho, "Workaholic" (Silva, 1994)
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1. Trabalha compulsivamente e sem necessidade
2. Trabalha o tempo todo e deixa de lado a família e o lazer
3. Tem "síndrome de abstinência", fica ansioso e sem saber o que fazer longe do trabalho, como nas férias e nos finais de semana
4. Faz várias coisas ao mesmo tempo: atende quatro telefonemas, marca três reuniões em dois lugares diferentes
5. Não sabe falar de outra coisa
6. Tem relacionamento difícil com os colegas: é chato, crítico e exigente; ninguém suporta seu ritmo de trabalho
7. Frequentemente tem problemas de saúde; é forte candidato ao infarto e outras doenças relacionadas ao estresse.
8. Quando consegue ter uma atividade de lazer, mantém com ela a mesma relação que tem com o trabalho. Por exemplo: joga 8 horas de tênis por semana e só pensa em ganhar.
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5) ALGUNS ALVOS DO ESTRESSE
5.1) Depressão
A depressão compõe, ao lado da ansiedade, da angústia e da mania, o conjunto daquilo que os psiquiatras chamam distúrbios da afetividade. Tais distúrbios podem ser entendidos como doenças em que a mudança do estado de ânimo é a característica primária e dominante, relativamente fixa e permanente. No caso da depressão, a mudança do estado de ânimo consiste no surgimento de um sentimento generalizado de tristeza, cujo grau pode variar desde um desalento moderado até ao mais intenso desespero. A duração é igualmente variável, podendo desaparecer em poucos dias, ou estender-se por semanas, meses e até anos a fio.
A depressão é um termo comum que tem acompanhado o homem através de sua história e literatura, portanto é uma experiência universal, já que as emoções de tristeza e pesar fazem parte da condição humana, e como toda doença, qualquer um pode ser acometido por ela. A depressão é, em geral, classificada como uma doença funcional, ou seja, que não tem causas físicas palpáveis, o que leva à suposição de ter origem psicológica. Isto tem sido questionado porque dentro dos limites normais reduziram-na a experiências subjetivas de desconforto, de sofrimento e de vulnerabilidade. Mas a falha desse mecanismo de defesa se relaciona principalmente com a elevação da produção de cortisol.
A depressão causada pelo estresse prolongado se dá devido à ativação constante da suprarrenal, levando-a a atingir seu nível máximo de produção de noradrenalina, a partir do qual se torna incapaz de satisfazer a demanda. Aí libera adrenalina, que lhe é precursora na síntese, e desenvolve sintomas de fuga mais do que de enfrentamento (Funkeinstein, 1970). No entanto, o indivíduo pode entrar em depressão aguda devido ao estresse de exaustão que libera logo cortisol (Mendels, 1972).
É necessário, entretanto, não confundir estados passageiros de melancolia com a depressão intrínseca, endógena. Existem inclusive situações diante das quais o anormal talvez fosse não ficar deprimido. É o caso, por exemplo, da perda do emprego ou "status" social, rompimento amoroso, e da morte de uma pessoa querida ou ainda a descoberta de que se é portador de uma doença grave. A esse tipo de depressão os médicos costumam chamar "depressão reativa" ou vivencial, justamente por caracterizar uma reação "normal" à perda.
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5.2) Os sintomas da depressão
Didaticamente, os sintomas da depressão (quadro 1) podem assim se agrupar: alterações do humor, lentificação das ações e reações psíquicas e de movimentação e os sintomas físicos propriamente ditos.
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Quadro I: Principais sintomas orgânicos da depressão:
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• Insônia
• Dor de cabeça
• Perda de apetite
• Constipação intestinal ou diarreia
• Náuseas
• Sensação de pressão no peito
• Sensação de "bolo na garganta"
• Dificuldade de respirar, sensação de falta de ar
• Dor no peito
• Sensação de "falhas" no coração
• Dor nas costas
• Perda ou redução do apetite sexual
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No primeiro quadro, num primeiro grupo se insere a perda de humor, sobressai a tristeza, com profundos sentimentos de desvalorização de si mesmo, acompanhados ou não de sentimento de culpa.
Um segundo grupo do primeiro quadro, apresenta as tentativas frustradas da lentificação psicomotora, como a própria denominação informa, marcado por um amortecimento generalizado nas atitudes, na capacidade de raciocínio, nas reações emocionais, no andar, gesticular etc. Do ponto de vista psíquico, o deprimido caracteriza-se por enorme falta de raciocínio e concentração. O indivíduo também se sente incapacitado para o intercâmbio afetivo ou emocional com outras pessoas. Instala-se uma certa indiferença para com os outros e o mundo em relação ao futuro.
Outros três distúrbios orgânicos podem aparecer no quadro 1, mais significativos do deprimido: distúrbios do sono, a falta de apetite e o mau funcionamento do intestino. O sono é, talvez, o mais precoce e intensamente atingido, a tal ponto que se deve colocar em dúvida o diagnóstico de depressão se a pessoa estiver dormindo bem. A insônia do deprimido é, na maioria das vezes, do tipo clássico: dificuldade de conciliar o sono ao se deitar. Também o apetite fica perturbado. Na maioria das vezes o que há é a inapetência. Mais raramente pode ocorrer a bulimia. Embora possa haver diarreia, mas o mais comum é que haja constipação intestinal. O aprofundamento do casuístico (quadro 2) pode levar ao suicídio, cujo risco de sucesso é aumentado quando já ocorreram ou ocorrem sintomas da depressão (quadro 1). Quem cerca ou trata o paciente deve ter uma atenção especial a isto (Mendels, 1972).
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Quadro II: Indicadores de risco elevado de conseguir
sucesso no suicídio, após tentativa frustrada:
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• Mostra de tentativa preparada, premeditada e ativa.
• Mostra de precauções para evitar intervenções de terceiros,
• Que frustrem a consumação do ato.
• Comunicação prévia do instinto suicida.
• Mostra de tentativa de utilizar métodos violentos ou drogas
• De potencial letal.
• Mostra de desapontamento pessoal legítimo, após a frustra-
• ção da tentativa.
• Mostra de não tentar obter ajuda após a consumação
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5.3) A fadiga com depressão mascarada, distimia
Embora, na maioria das vezes, a pessoa deprimida preencha o perfil traçado acima, há casos em que a depressão é mascarada, isto é, apresenta-se sob a forma de um sintoma físico mitigado, sem que a pessoa pareça ou se reconheça triste ou deprimida. Uma maneira, razoavelmente freqüente, de depressão "mascarada" é a da fadiga de um conflito emocional não resolvido, equivalente a uma forma menor de depressão. Usa-se uma expressão suave para formas atenuadas de depressão: distimia.
Os psiquiatras sugerem que em sua gênese, além de uma certo envolvimento interno do indivíduo, existe um componente social externo que o pressiona e com o qual ele interage. O provável, na maior parte dos casos, é queixa de fadiga de uma manifestação neurótica, tendo como via de escape sentimentos não muito conscientes de agressão e de culpa, cuja intensidade é insuportável para o indivíduo. As causas externas atuariam então apenas como fatores desencadeantes ou coadjuvantes.
Apesar da depressão ser um fato comum na vida do ser humano, há ainda um preconceito em relação a ela, muitas pessoas não aceitam o fato de possui-la, e a falta de esclarecimento faz com que a busca de ajuda ocorra somente quando o sintoma se torna insuportável. Dessa forma, a depressão não resolvida pode resultar, além de várias doenças orgânicas, podendo chegar ao suicídio, ou se persistir, implicando graus variáveis de incapacitação do indivíduo, mas abalando sempre sua alegria de viver.
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5.4 Câncer
O câncer é causado por um erro genético. A todo momento, o corpo humano produz células defeituosas. No organismo sadio, elas são destruídas por proteínas que combatem os tumores. O câncer só vinga quando um erro na estrutura do RNA impede a síntese das proteínas defensoras. Na ausência dessa barreira natural, as células cancerosas se multiplicam em velocidade assustadora, muito superior à do restante das células do organismo. Se nada for feito contra o avanço da doença, as células cancerosas criam uma rede de vasos sanguíneos para garantir a própria nutrição. O tumor expande-se, num processo chamado metástase. As células doentes se espalham pelas veias e vasos linfáticos, contaminando órgãos e tecidos vizinhos. Fixam-se nos ossos e vísceras, como pulmões e fígado.
No câncer há um colapso da imunidade e resistência do organismo. O fato dos tumores crescerem ou não está relacionado com a eficiência dos processos de imunidade. Assim, se o sistema imunológico se encontra "desequilibrado", a probabilidade do desenvolvimento da doença aumenta. Como o sistema imunológico é também controlado pelo sistema límbico, podemos acreditar que o paciente com câncer apresenta todo um conjunto de elementos psicossomáticos.
Três pesquisadores, o casal Simonton e Creighton (1987) constataram que o lado psicológico da doença é tão importante quanto o físico e o biológico. Schmale e lker estudaram um grupo de 40 mulheres sem sintomas, mas com teste de Papanicolau denotando predisposição ao câncer. Tentaram prever as que desenvolveriam a doença, com base em entrevistas e testes de personalidade. Previram que o câncer de colo de útero iria ocorrer naquelas em que detectaram fortes sentimentos de desesperança ao longo da vida e/ou como reação a perdas recentes e significativas. Acertaram em cerca de 75% dos casos. Supõe-se que o câncer de mama tem a ver com a vivência, pela mulher, de relações conjugais empobrecidas e insatisfatórias (Simonton et al, 1987). Silva (1994) confirma, com base em vários trabalhos científicos, que há uma clara relação entre a eclosão do câncer e situações de perda, levando à depressão.
O perfil psicológico do paciente também é importante quando consideramos a evolução da doença. Mesmo aqueles que negam a importância do "psiquismo" no desencadear do câncer concordam que sua evolução seja influenciada pela personalidade do doente, sua maior ou menor resistência psíquica e ainda por sua maior ou menor disposição de lutar pela vida. Aqueles que renunciam e se entregam evoluem mal e morrem logo. Os que têm atitudes positivas, força de vontade e objetivos na vida, evoluem melhor, vivem mais e podem até curar-se. Ou, mesmo que venham a morrer, o período entre o conhecimento da doença e sua morte será não só maior como também melhor, em termos de bem-estar e qualidade de vida.
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5.5) Úlceras gastroduodenais
Por úlcera entende-se uma inflamação ou lesão de alguma superfície da mucosa gastroduodenal da superfície do estômago e do duodeno. Sabe-se que as manifestações emocionais atacam sobretudo o sistema gastrointestinal. A maioria das pessoas reconhecem, por uma intuição clínica remota, a existência de concomitantes psíquicos, que parecem indicar a influência, em seu aparecimento ou agravação de problemas, conflitos e dificuldades emocionais, de várias ordens, inclusive situações vitais penosas e prolongadas, definidoras do que hoje se entende por estresse. Entre estas causas as úlceras gastroduodenais ocupam lugar de honra.
Para desenvolver-se uma úlcera, três fatores devem confluir: secreção exagerada de suco gástrico (fatores genéticos e hereditários influem aqui); perfil psicológico propício; e a ocorrência de episódio gerador de intensa frustração, que corresponderia ao desencadear da úlcera. Como ponto central do lado psicológico haveria uma frustração oral, que tornaria a personalidade carente de afeto e sujeito à dependência.
No estômago normal digere-se a carne ingerida, mas o suco gástrico não digere o próprio órgão, porque ocorre um processo inflamatório no tecido gástrico, que forma uma barreira de proteção, ´s vezes em forma de cápsulas, contra a digestão gástrica do próprio órgão. O que vai produzir a úlcera é o excesso de acidez que o cérebro manda o estômago produzir durante a alimentação, quando encontra baixa resistência da parede visceral devido à falta de muco, inibido pelo estresse, por falta de ação do parassimpático. Assim, o estresse, via hormônios de adaptação intermediários, reduz a resistência da barreira inflamatória e intensifica a influência agressiva dos sucos gástricos. Outras doenças digestivas, como a colite ulcerativa, são também influenciadas pelo estresse.
As úlceras são doenças do mundo moderno, civilizado. Ela ataca homens e mulheres do mundo todo. Porém, hoje pode-se notar também o aumento de úlceras em crianças por causa de sua entrada mais cedo na escola ou creche onde há um ambiente competitivo, o que acarreta tensão emocional e sentimentos como medo de rejeição nas crianças.
Observa-se úlceras com maior frequência em pessoas desajustadas no trabalho e sofredoras de tensão e frustração constantes. Geralmente as pessoas tendem a explicar a úlcera no homem "bem-sucedido" e ocupado pelos problemas encontrados no trabalho. Na verdade, talvez, o raciocínio correto seja o inverso: o indivíduo seria bem-sucedido justamente por ter o perfil psicológico do ulceroso: ambicioso e realizador no plano social e perturbado no seu ritmo biológico.
Embora, nem todos os ulcerosos vão buscar no sucesso exterior a compensação para a carência interior, quatro tipos de personalidade se destacam entre os ulcerosos: o tipo I, hiperativo-competitivo, teria tendências ativas e seria o "vencedor", "mandão", líder e chefe. O tipo II, o compensado, é geralmente ativo profissionalmente e passivo em casa, ou vice-versa, é o tipo mais favorável e adaptado socialmente. O tipo lll, o alternante, é socialmente instável e alterna entre a passividade e a atividade. O tipo lV, ou dependente, é o tipo mais desfavorável e inadaptado socialmente, geralmente precisa ser operado e possui tendências passivas.
Entretanto, todos os quatro tipos teriam como característica comum e básica, a falta de controle emocional: carinhos, cuidados e afetos e a incapacidade de expressá-la, bem como a agressividade daí decorrente (Goleman, 1995). Daí a metáfora de que: "fechariam então a boca, isto é, não comunicariam suas necessidades e "abririam" o estômago para a ferida (úlcera). Para finalizar, é interessante ressaltar a melhora que os estados depressivos trazem à úlcera. Durante a depressão, o indivíduo, exteriorizando a tristeza interior, não precisa mais engoli-la e, consequentemente, ferir seu estômago.
Só para citar, outros distúrbios gastrointestinais de origem emocional, além da úlcera: falta de apetite (anorexia); apetite exagerado (bulimia); náuseas e vômitos; dificuldade de engolir (disfagia); "gases" (aerofagia e aerocolia); "bolo" na garganta ou no estômago; dores abdominais diversas; dispepsias ou "males de fígado"; diarreia; constipação intestinal; gastrite; enterites; colites.
Não se deve esquecer também que pesquisas recentes descobriram úlceras de origem bacteriana, o Helicoter bacter, com uma frequência de incidência bastante alta e com transmissão contaminante.
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5.6) Impotência Sexual
Para manter-se vivo em situações de estresse, o corpo utiliza-se de todas as suas reservas e negligencia necessidades menos prementes como a reprodução. Nos indivíduos do sexo masculino, o impulso sexual e a formação de espermatozoides são reduzidos.
Franz Alexander coloca o campo da sexualidade como o que mais tem os aspectos psicológicos e fisiológicos decorrente de relacionamento íntimo das pessoas. As glândulas sexuais exercem uma influência bastante significativa sobre a temperatura e o comportamento, incluindo a glândula pituitária que regula as gônadas em ambos os sexos através de hormônios específicos. No homem, as características físicas e emocionais da virilidade são controladas pelos andrógenos.
Em condições normais, tanto o SNAS quanto o sistema nervoso vegetativo parassimpático (SNAP), participam da regulação das atividades sexuais em ambos os sexos. O SNAP provoca ereção no homem e intumescimento da genitália feminina. Mas, em situação de conflito e estresse, o SNAS sobrepõe-se ao segundo e o resultado é, dentre outros, a vasoconstrição sanguínea, o que impossibilita a atividade sexual em ambos os sexos devido à diminuição da irrigação dos órgãos genitais. Alexander enfatiza que, sob as condições crônicas, os mecanismos neurogênicos tornam-se menos importantes e as regulações hormonais assumem o primeiro plano, no sentido da presença constante de catecolaminas no sangue e a baixa de hormônios gonodais.
Estudos com animais demonstram que as glândulas sexuais ingurgitam-se e tornam-se menos ativas em relação à dilatação e aumento das atividades das suprarrenais. A pituitária produz grande quantidade do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) para manter a vida, ativando as suprarrenais e, ao mesmo tempo, reduzindo a produção de outros hormônios que são menos urgentes em condições de emergência, como os gonadotróficos. Outros estudos confirmaram nos seres humanos que estas reações produzem a impotência sexual.
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6) COMO A NICOTINA DO CIGARRO MINA A SAÚDE
A ação do sistema nervoso autônomo simpático, a princípio, dá ao indivíduo uma sensação de euforia, porque excita.
Os neurônios pré-ganglionares, tanto do simpático quanto do parassimpático, secretam acetilcolina nas suas terminações nervosas e esta, por sua vez, estimula os neurônios pós-ganglionares. A nicotina, em baixa concentração, é uma substância que também pode estimular os neurônios pós-ganglionares da mesma maneira que a acetilcolina, por isto as membranas neuronais são ditas terem receptores colinérgicos nicotínicos, por responderem a ambas substâncias.
A nicotina excita tanto o SNAS quanto o parassimpático, simultaneamente, resultando, como predominância do primeiro, em forte vasoconstrição nas vísceras e nos músculos esqueléticos, podendo ocasionar, nas situações de bloqueio emocional, efeitos parassimpáticos paralelos, tais como o aumento da atividade gastrintestinal e, às vezes, diminuição da frequência cardíaca. A ação simpática explica-se pelo seu efeito mais maciço e abrangente, devido à multiplicação dos seus contatos sinápticos e a difusão de catecolaminas pelo sangue.
Farmacologicamente, a nicotina age estimulando ou deprimindo as estruturas onde ocorrem receptores nicotínicos do SNAS nos aparelhos cardiovascular, respiratório, gastrointestinal, urinário etc e na musculatura esquelética. Além disto sua absorção pelas vias respiratórias, mucosa bucal e pele é bem grande. Esta ação dupla é realizada da seguinte maneira: quando administrada em pequenas doses, a nicotina causa uma despolarização inicial, gerando um potencial excitatório pós-sináptico rápido. Em doses maiores, segue-se o bloqueio da transmissão nervosa por hiperpolarização. Em administrações contínuas, causa a dessensibilização dos receptores nicotínicos, prolongando-se o bloqueio.
Como a nicotina "simula" a ação da acetilcolina, ao começar a fumar o indivíduo se sentirá forte e eufórico a cada cigarro consumido. Porém, quando o hábito de fumar é prolongado, acumula-se maior quantidade de nicotina no organismo, e seu efeito passa a ser de bloquear a ação do SNAS.
Paradoxalmente, quando um indivíduo é submetido a situações de altos e frequentes níveis de estresse, o SNAS passa a ser aversivo, por se acabar condicionando à fuga de estímulos agressivos. Os altos níveis de nicotina vão condicionar o indivíduo a evitar a ação do SNAS, produzindo prazer imediato, pois se associou ao incômodo estressante. Essa desestimulação do SNAS poderá acarretar vários problemas para o organismo, como por exemplo a deficiência da circulação sanguínea, pois, na situação de agressão contínua grave, aumenta-se a demanda nutricional dos órgãos, para ter uma reação à altura da agressão, podendo levar à gangrena nos membros por insuficiência de nutrientes.
Concluindo, o cigarro leva ao estresse, que talvez seja talvez seja a maior causa moderna de satisfação do prazer e de resistência às opressões, além da curiosidade e "marketing", que leva uma pessoa a se tornar dependente dos efeitos da nicotina, para manter o moral. As multinacionais e os governos atrasados se aproveitam disso para aumentar seus orçamentos sempre deficitários às custas dos "pobres" viciados.
Quando o fumante se expõe constantemente a situações estressantes, o SNAS é continuamente estimulado e associado a sensações desagradáveis, e aí paradoxalmente a necessidade de fumar é para que a nicotina possa inibir a ação simpática e amenizar o desconforto. Portanto, podemos dizer que, no início, o vício é mantido pela agradável sensação de euforia proporcionada pela nicotina estimulatória do SNAS, e posteriormente, pelo bloqueio das sensações desagradáveis causadas por uma elevada e continuada estimulação do SNAS, condicionado aversivamente.
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7) CONCLUSÃO:
Evitando malefícios e encontrando o caminho do bem-estar na vida moderna. A interação íntima entre processos físicos e mentais tem sido reconhecida ao longo dos tempos, porém, o modo preciso como essa interação é feita ainda não é bem entendido, o que faz com que a maioria dos médicos negligenciem os aspectos psicológicos das doenças. Com o surgimento de várias abordagens que tentam resgatar a unidade entre corpo e mente no homem, foi criada uma extensa literatura sobre o papel das influências psicológicas no desenvolvimento das doenças, mas pouquíssimo trabalho foi realizado para explorar os métodos de alteração dessas influências maléficas (Pimentel de Souza et al, 1997 e 1998). Segundo Capra (1993) em seu livro "O Ponto de Mutação, a chave para se estudar esses métodos é a ideia de que as atitudes e os processos mentais não só desempenham um papel significativo no desenvolvimento de uma doença, como são também decisivos no processo de cura.
A natureza psicossomática subentende a possibilidade de auto cura psicossomática. O primeiro passo nesse tipo de auto cura será o reconhecimento pelos pacientes, de que participaram, consciente ou inconscientemente, da origem e do desenvolvimento de sua doença e que por isso mesmo são capazes de participar do processo de cura.
No contexto de uma abordagem psicossomática, essa participação no desenvolvimento de uma doença significa que fazemos certas escolhas que nos expõe a situações estressantes. Essas escolhas são influenciadas pelos mesmos fatores que influenciam todas as escolhas que fazemos na vida. Elas são feitas muito mais inconsciente do que conscientemente e dependerão de nossa personalidade, de várias restrições externas o do condicionamento sociocultural. A finalidade do reconhecimento de participação pessoal no processo da doença abrange todos esses fatores. Através dessa conscientização, podem-se promover as mudanças necessárias nesse contexto que possibilitam o processo de cura.
A cura da doença não fará necessariamente com que o paciente fique saudável, mas a enfermidade pode ser uma oportunidade para a introspecção que irá buscar transparência na raiz do problema. Não há como evitar a conclusão de que o atual sistema se tornou, por si mesmo, uma ameaça fundamental à nossa saúde. Não seremos capazes de aumentar, ou mesmo manter nossa saúde, se não adotarmos profundas mudanças em nosso sistema de valores e em nossa organização social. O médico Leon Eisenberg reconhece esse aspecto com muita clareza: "nossa prática diária com padecimentos humanos tornou-nos profundamente conscientes de que os problemas de má saúde decorrem, em grande parte, de falhas em nossas instituições políticas, econômicas e sociais. Replanejar todas essas instituições é o desafio central para o próximo século, e acenar com promessas de melhora de saúde pública".
Diante desse quadro, que tende a se agravar cada vez mais, que atitudes devemos tomar para retomar o curso de um desenvolvimento saudável? É possível mudar esse sistema? Sem dúvidas, essa mudança é um grande desafio, e não é de se espantar que ela seja proposta agora e se estenda ao próximo século.
Goleman (1995), em seu livro "Inteligência Emocional", aponta para a importância de se promover uma nova educação que esteja atenta não só à transmissão do saber tecnológico, mas que também desperte nas crianças o interesse por seus sentimentos, por suas emoções. Ele propõe um programa de alfabetização emocional. Esse programa desenvolveria tópicos básicos como autoconsciência emocional, controle das emoções, canalização produtiva das emoções, entre outros. Propostas como esta são fundamentais para que se comece a substituir nosso atual paradigma mecanicista por um novo que valorize nosso aspecto mais sublime que é o de sermos humanos. Parece que em nossa ânsia por desenvolvimento e progresso, colocamos esse nosso aspecto em segundo plano. A luta pela sobrevivência, a competitividade trouxe ao homem o desejo da perfeição e por um momento desejamos ser como máquinas, ignorando nossas limitações orgânicas e desvalorizando nossos sentimentos. O progresso, os desenvolvimentos trouxeram e trazem ganhos indiscutíveis, mas é chegada a hora de adaptar esses ganhos materiais às nossas verdadeiras necessidades. O progresso, é lógico, deve continuar, mas com seu objetivo básico de trazer benefícios, e não malefícios.
"O homem moderno na sua ânsia de conquistar o universo está se esquecendo da maior das maravilhas: o encontro consigo mesmo"( Dr. Oswaldo Paulino), que aqueles que já se deram conta disso possam levar a outros a importância desta busca e que nas próximas gerações ela seja uma necessidade central na vida humana. Assim, o amadurecimento mental e psicológico é a resposta à exigência da vida moderna, necessitando o homem para tal recuperar sua vida íntima.
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8) BIBLIOGRAFIA
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• O estresse foi mostrado na sua ação mais forte, já iniciando uma ação negativa e exaustiva, embora fosse apresentado em todas as etapas, especialmente na sua relação com a sociedade moderna.
• O Primeiro Mundo está mudando a postura em relação à qualidade de vida, procurando controlar as diferentes formas de poluição, garantias e tranquilidade ao cidadão quando necessária, para não escapar do colapso de civilização e cedendo à pressão dos homens sensíveis, ao contrário do Terceiro Mundo, que luta pela sobrevivência. A opção ecológica tem crescido como uma forma de desenvolvimento autossustentável, estável à longo prazo, por permitir à natureza se resgatar e abrigar de maneira mais sustentável o bem-estar humano.
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Transcrito da monografia intitulada: " O estresse forte e o desgaste geral" trabalho final da Disciplina Psicofisiologia do Depto. de Fisiologia e Biofísica do ICB, UFMG, para os alunos do Curso de Psicologia da FAFICH, UFMG, autores: Aline Moreira Braga, Celina da Piedade Camilo Andrade, Elisa Patta Nunes, Flávia de Castro Silva, Kenia Alves, Leonora Martins, Monick Melo Rocha Duarte, Paulo Mariano D. Campos, Simone Xavier da Costa e Violeta Vaz Penna (Alunos do 3º período de graduação do Curso de Psicologia do primeiro semestre de 1997) sob orientação do Professor Fernando Pimentel Souza