A evolução das tecnologias com aplicações militares é um bom guia para as oportunidades e os constrangimentos na política internacional.

Na terça-feira, unidades curdas das Forças Democráticas da Síria e forças de operações especiais dos EUA conquistaram a cidade de Raqqa. Uma série de aeronaves não-tripuladas norte-americanas apoiaram o avanço destas unidades militares no terreno e garantiram o domínio aéreo de Washington no teatro de operações.

Desde o final de 2001, com os primeiros ataques aéreos dos MQ-1L “Predator” contra os talibãs no Afeganistão, temos olhado para estas aeronaves como o símbolo da superioridade tecnológica dos EUA ao nível militar. No final de 2017, a importância do poder aeroespacial norte-americano é tão grande que Washington está a mudar o seu conceito de base aérea.

Agadez, no Níger, é um bom melhor exemplo deste processo de transformação. A “Base Aérea 201” custará a Washington 100 milhões de dólares (leu bem, não é engano). Ali ficarão estacionados os MQ-9 “Reaper,” que levarão a cabo missões de recolha de informações, vigilância, reconhecimento e ataque na vasta região do sul do deserto do Sahara. Em 2020, a Marinha norte-americana espera ter em dois porta-aviões as suas primeiras aeronaves não-tripuladas, os MQ-25A “Stingray,”

Os EUA, todavia, não estão sózinhos nesta transição tecnológica e militar. Nas batalhas de Zelenopillya (2014) e Debaltseve (2015) no leste da Ucrânia, a Rússia dizimou as forças de Kiev com fogos de precisão de artilharia apoiados por aeronaves não-tripuladas. Em Pequim, este tipo de plataformas é vista como essencial para a sua modernização militar e negação do acesso dos EUA e dos seus aliados na Ásia-Pacífico a áreas consideradas vitais pelos decisores chineses.

A doutrina militar da China aponta para o desenvolvimento de enxames de aeronaves não-tripuladas coordenadas por sistemas de inteligência artificial com capacidade para derrotar ou criar sérias dificuldades a plataformas e unidades norte-americanas com equipamento muito avançado do ponto de vista tecnológico. O recente investimento da desconhecida Skyrizon chinesa na Motor Sich ucraniana, um dos principais fabricantes mundiais de motores aéreos, faz parte deste processo.

Como é que Washington está a reagir à difusão das tecnologias com aplicações militares na área das aeronaves não-tripuladas? Como o Tenente-General Ben Hodges, o comandante do Exército dos EUA na Europa, disse no verão passado: “ao contrário dos últimos 15 anos, temos de nos preocupar com o que está acima de nós.”

No início do mês, o Vice-Presidente Mike Pence, presidiu ao Conselho Nacional Espacial para reavaliar as opções dos EUA nesta área. O mais natural é que Washington venha a adoptar uma política de controlo espacial assente em meios defensivos e ofensivos.

Estamos a entrar numa nova era aeroespacial caracterizada pela convergência de tecnologias com aplicações militares e civis. Vêm aí muitos mais olhos no céu.