No início de Agosto de 2013, o director dos serviços secretos da Arábia Saudita foi à residência pessoal de Vladimir Putin nos arredores de Moscovo propôr um acordo: Riade ajudaria a garantir o controlo dos preços do petróleo nos mercados internacionais, os interesses russos na costa da Síria seriam mantidos e a segurança no Cáucaso contra ataques terroristas protegida, desde que o Kremlin retirasse o seu apoio ao regime do clã Assad em Damasco. A alternativa seria uma guerra total na Síria. A conversa entre o Príncipe Bandar e Putin durou quatro horas e foi tempestuosa. No final, o líder russo rejeitou a proposta de Bandar. 

Quatro anos depois, o Rei Salman bin Abdulaziz fez esta semana a primeira visita oficial de um monarca saudita à Rússia. Consigo foi aquela que deve ter sido uma das maiores comitivas de sempre numa visita deste tipo à capital russa. A situação geopolítica e as mudanças no mapa energético mundial explicam a aproximação entre as lideranças da Arábia Saudita e da Rússia.

Os EUA continuam a ser a capital com mais influência no Médio Oriente. Porém, os sauditas sentem que deixaram de conseguir avaliar bem as intenções de Washington a nível regional. No que toca à Síria, Riade sabe que Moscovo prevaleceu com a ajuda do Irão e do Hezbollah. Terá, pois, de aceitar a permanência do clã Assad em Damasco. As grandes preocupações sauditas são o excesso de influência do Irão na Síria e no Iémen. Os líderes sauditas necessitam da cooperação russa para gerir este problema numa região em processo de reconfiguração estratégica. Moscovo, por seu lado, vê na Síria uma oportunidade para voltar a ser uma capital indispensável para todos os decisores no Médio Oriente. 

A Arábia Saudita e a Rússia lideram a produção internacional de petróleo. Segundo a BP Statistical Review of World Energy 2017, os dois países extraíram 13,4% e 12,2% do total mundial em 2015. Durante décadas, a relação entre Riade e Moscovo foi de rivalidade energética. Riade cooperou muitas vezes com Washington para garantir a satisfação das necessidades e interesses dos EUA a nível interno e externo. Agora, porém, os EUA partilham com a Arábia Saudita o primeiro lugar na produção mundial de petróleo. A cooperação deu lugar à competição por mercados. 

No final de Setembro, as exportações de petróleo e produtos refinados das empresas norte-americanas atingiram os 7 milhões de barris por dia. Há dois anos esta situação era simplesmente inconcebível em Riade e Moscovo. Este foi um dos temas das conversas entre o Rei Salman e Vladimir Putin. Ambos têm interesse em cooperar para moderar a sua produção petrolífera numa época de abundância energética. Moscovo necessita de nova tecnologia e investimento para explorar os seus campos de petróleo e gás natural no Árctico. Os sauditas, pelo seu lado, gostariam de ter investimentos russos no sector da petroquímica e a ajuda de Moscovo na transformação económica anunciada pelo Príncipe Mohammed Bin Salman. O futuro político deste em Riade depende do sucesso desta iniciativa. 

Um rei saudita em Moscovo é um acontecimento histórico. Até onde irá a transição da desconfiança para a cooperação entre a Arábia Saudita e a Rússia?